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Na montra

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Soutocico (Arrabal, Leiria), 23 de Janeiro de 2016

Por Carlos Fernandes

Apresentar um livro que é, na sua essência, a história da vida de uma pessoa, não é coisa fácil. Ao pensar em como fazê-lo, confrontei-me com o dilema de vos massacrar com um resumo alargado ou de vos sovar com apenas algumas considerações gerais. Decidi ficar-me pela considerações gerais, até para que tenham o prazer de, ao ler, serem surpreendidos com as histórias que o Fernando Brites para aqui carreou. E desincumbo-me, assim, de uma tarefa árdua para mim e, porventura, massuda para todos vós.

Nascido em 1951, o Fernando, para além de uma longa e bem recheada vida, escreveu vários livros, a solo e em parceria.

Seus, são os seguintes:

Mirante (poesia), Moçambique, 1970;

Canção para um poema só (poesia), Leiria, 1975;

Vozes no Charco (ensaio sobre a guerra colonial), Leiria, 1999;

O último patamar (monografia), Soutocico, 2012;

Em co-autoria participou nos seguintes:

5x5 Poetas de Leiria, 1983;

Poesia Contemporânea em Leiria (Antologia dos Poetas de Leiria), 1988;

Orvalhos de Saudade (Antologia de Poetas da Freguesia do Arrabal), 2001.

Tem, portanto, já uma experiência muito significativa neste mester de escrever, até pelo hábito salutar de sempre tomar notas dos acontecimentos. Penso não desvalorizar a sua produção global se disser que “Vozes no Charco” e “O último patamar” são trabalhos de muito mérito que valem por todos. Porque são o fruto de uma vivência muito intensa e vibrante e a leitura atenta e lúcida dos acontecimentos.

Quanto a este “Recreio de memórias”, que classifica de “narrativa”, ele próprio escreve que «não tem pretensões a ser uma autobiografia, pois obedece a um estilo de escrita diferente, tratando-se antes de uma espécie de quase-diário, mais intimista, preocupando-se apenas o autor em colher as suas memórias, sem receios, pois, como dizia Pablo Neruda, é proibido (…) ter medo das suas lembranças.» Entende que «as mais longínquas serão um tanto difusas, logo menos densas, e naturalmente há outro rigor e precisão na busca das mais recentes», sendo «lógico que os factos mais marcantes da sua existência fluam com outra profundidade». Confessa que, «ao franquear o baú de recordações, tem (...) plena consciência do risco, mas saberá aceitar com humildade a crítica que lhe subjaz».

É uma narrativa quase biográfica, sim. Mas não no sentido de elevar de forma narcisista o ego do autor. Que não é o único protagonista. Há neste longo texto de 612 páginas um conjunto de histórias tão diversificado que o autor, às vezes, parece somente mais um protagonista entre todos os que dão corpo à narrativa.

E, à medida que se lê, percebe-se que o tom pícaro não deslustra o ar sério das questões, que a história divertida ou anedótica não se opõe aos episódios trágicos, que o ar bonacheirão de um engate oportuno não coíbe o sentido responsável do profissional.

É importante ainda sublinhar o olhar atento que o autor põe no mundo que o rodeia, assinalando, de par com a sua pequena/grande história pessoal, os acontecimentos que, a nível nacional ou internacional, vão marcando o compasso da história. Para ser breve, não me detenho em exemplos, que são muitos e sistemáticos. E, repito, acho que será muito mais interessante ser o leitor a ser confrontado com eles e a perceber que a nossa história muito pessoal é sempre uma parte da história do mundo.

Poderão fazer-se sempre reparos à forma como a narrativa evolui, aos nomes citados (ou omitidos), aos episódios mais ou menos comprometedores, às revelações surpreendentes, ao protagonismo do autor, sempre presente em tudo o que conta, et pour cause!, aos seus gostos, à sua verve, ao seu dramatismo, às suas pieguices, às suas aventuras, enfim, a tudo o que escreveu. Sim, poderão fazer-se. Mas... porque escreveu! Porque teve a coragem, ou a ousadia, de escrever. Bastas vezes lhe disse, e aqui o repito, que este tipo de narrativas é sempre de uma importância capital para compreender o nosso pequeno mundo, aquele mundo à escala da nossa terra ou da nossa população. É nestas narrativas que, às vezes, se encontra a chave para alguns enigmas. E se não forem aqueles que conhecem as coisas por dentro a deixar escrito como se passaram, nunca mais ninguém atinará com a resposta.

Em termos de estrutura, o Fernando Brites alinhou a sua narrativa por décadas, de forma cronológica, e até nos facilitou ao sintetizar, num epílogo em jeito de reflexão, o que cada década mais significou para si. Permitam-me que passe os olhos por essas considerações e vos desvele, finalmente, as linhas mestras da obra:

[Primeira década] Começa pela infância, a escola, o significado dos valores sociais tão arreigados às famílias daquele tempo e ao início do conhecimento, da aprendizagem, do saber, da sensibilidade e até da poesia.

A segunda década também é relevante, na passagem para o secundário, a perda da avó paterna e também do primeiro amor, a confrontação com uma realidade de horizontes mais vastos, uma década onde aconteceram revoluções pela libertação de tantos povos oprimidos pelo colonialismo, a revolução sexual, dos tabus, da música rock, do vestuário ousado, da forte emigração, da adolescência, da iniciação sexual, da primeira viagem para Moçambique, a coincidir com a chegada à Lua pelos americanos.

A terceira década foi sem sombra de dúvida a mais importante, porque, quase imberbe, virou soldado e foi obrigado a combater numa guerra colonial desprovida de qualquer sentido, convivendo com a dor e o sofrimento, a morte de dois camaradas de armas. Faleceram-lhe os avós maternos; nesta década ajudou a fundar o seu clube do coração, conheceu a mulher da sua vida e casou, nascendo o primeiro dos seus dois filhos, a Sílvia.

[Quarta década] Nos anos oitenta abandonouo futebol de competição com tristeza, deixou de fumar, nasceu-lhe segundo filho, o João, consolidou o seu casamento, construiu a sua casa e, segundo diz, não tendo muitas posses, iniciou nesta década um périplo pelo Portugal real, para o conhecer e aprofundar. Publicou, entretanto, os primeiros livros de poesia e ganhou prémios nesta arte; inconformado, procurou novas soluções no mercado de trabalho, sem grande sucesso, voltando à escrita e à leitura como um escape.

[Quinta década] Esta década, que qualifica de mudança, começou com a dor atroz pela perda da sua madrinha Lucinda, a quem devotava grande respeito pela sua sabedoria, e também do seu cunhado Alcides, com quem partilhou a escola primária e, mais tarde, as aventuras da viagem para Moçambique. Mudou de trabalho, matriculou-se na Faculdade, tirou o curso de Direito, progrediu na carreira técnica da Administração Pública e atingiu cargos de chefia intermédia, de alta relevância no contexto distrital, como o de Secretário do Governo Civil, participou na organização de duas monografias locais e publicou o seu primeiro livro de prosa: “Vozes no Charco”, retrato fiel da sua passagem pela guerra colonial, em Moçambique.

[Sexta década] Inicia-se o novo milénio com nova mudança na sua vida profissional, tendo sido convidado para Coordenador da Secção de Processo de Leiria do IGFSS, onde permaneceu durante nove anos, sofreu uma mágoa terrível com a perda da sua mãe e também de ambos os sogros, acompanhou a adolescência dos filhos, a sua entrada no ensino superior, o ingresso no mercado de trabalho da filha, chegou a Presidente do seu clube e iniciou um ciclo de viagens pelo estrangeiro, conhecido que já estava o território nacional.

[Sétima década] A última década que ele quis relatar, inicia-se com a sua aposentação dos cargos que desempenhava na Administração Pública, com a publicação do seu segundo livro de prosa, “O Último Patamar”, onde são enaltecidos os feitos dos antepassados do povo do Soutocico, em prol da cultura popular, assiste à morte do pai, que o deixou prostrado, foi operado à anca direita e, mais tarde, convidado para presidir aos destinos da Associação de Basquetebol de Leiria, encetando uma viagem ao Brasil para visitar o filho arquitecto, que em São Paulo iniciou a sua actividade profissional.

Pelo meio, a narrativa vai sendo temperada, ou ilustrada, ou matizada, ou enriquecida, ou tudo isso ao mesmo tempo, com poesia, muita poesia, reafirmando os seus dotes poéticos e a sensibilidade que, afinal, perpassa por todos os seus escritos.

Termino lendo justamente o parágrafo que encerra este magnífico trabalho que tive o privilégio de editar em livro e que agora fica à vossa disposição:

«Aos sessenta e cinco anos de idade resolvi escrever e publicar este livro de memórias com o mero intuito de que se torne, não uma revisitação ao baú das recordações, mas sim para que sirva de ampla reflexão às pessoas que o vierem a ler, de como são tão importantes as coisas simples da vida, aprender a vivê-la, recreá-la e preenchê-la com qualidade e intensidade, sem jamais abdicar da sensibilidade, do conhecimento, da observação, da leitura e da pesquisa e chegar ao horizonte dos dias, com aquela sensação extraordinária de ter sabido viver, vivendo intensamente cada momento como se fosse o último, não vegetando simplesmente, vogando ao sabor amargo de uma breve e anónima passagem, sem ter gozado a vida na sua plenitude.»

Parabéns, caro amigo Fernando Brites!