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Na montra

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Interrogar-se-ão alguns sobre as razões que levam a que seja eu o apresentador do livro de Carlos Silva e Carlos Fernandes. Devo informar-vos que eu próprio me fiz essa pergunta e, inclusivamente, a enderecei aos autores…
Foi a pretexto da admiração e gosto mútuo pela obra de um escritor que conheci o Carlos Fernandes.
Há mais de 15 anos, o Carlos Silva, também ele, na altura, professor do liceu de Leiria, soube que eu tinha um projecto de dinamização de Eça de Queirós junto dos nossos alunos. A ideia passava por convidar pessoas que pudessem transmitir àqueles jovens uma visão diferente, ou pelo menos, não ortodoxa e livresca, da personalidade do autor do Crime do Padre Amaro. O Engenheiro Carlos Fernandes de imediato me surpreendeu pela facilidade com que se disponibilizou a colaborar na iniciativa. O projecto, que envolveu ainda outras pessoas exteriores à escola, foi um sucesso, sobretudo pela riqueza e verdade que se percebiam nas palavras, nos gestos, nas cativantes conversas que manteve com os meus alunos.
Desde essa altura que, de forma discreta mas sempre interessada, venho observando o seu dinamismo, mormente enquanto jornalista, autor e, mais ultimamente, editor.
O colega Carlos Silva, co-autor desta obra sobre a qual convosco partilharei alguns comentários, é, também ele, um exemplo de dinamismo, de iniciativa, de sede de aprender e, mais importante, vontade de partilhar. Muito por culpa dele, já por várias vezes tenho sentido aquele desconforto que sobrevém da percepção da minha total ignorância sobre um determinado assunto. Apenas dois exemplos: Há poucos anos foram os haicais… Mais recentemente são os tankas e o mestre Bashô…
Mas não fico zangado. Fico agradecido. Porque, em consequência, me torno, um pouquinho mais, menos pobre…
“Murmúr(i)os e outras imagens faladas” são uma colectânea de imagens fotográficas, captadas por Carlos Fernandes (em mais uma das suas facetas criadoras) e textos escritos por Carlos Alberto Silva, inspirados na técnica desenvolvida por Matsuo Bashô, pseudónimo literário de um filho de samurai japonês, que viveu na segunda metade do século XVII.
O Tanka é uma arte poética nobre, de origem milenar, consiste num poema curto e trabalhado, composto por duas estrofes, a primeira, um terceto e a segunda, um dístico. Tem a sua origem na uta, do século VII ou VIII, (que significava canção) e que foi, ainda, designada por waka.
O tanka, no século XVII terá também dado origem à renga, que era uma espécie de sucessão de tankas, em cadeia, produzidos por vários poetas, algo que poderia, de certo modo, equivaler às nossas cantigas populares de desafio.
Apenas como um último apontamento, sobre este esclarecimento, Bashô terá sido o primeiro a designar a primeira estrofe do renga como hokku e, as seguintes como hai-kai, dando-lhes as características da natureza, tais como: primavera, verão, outono, inverno, a chuva, o vento...
Prestando, agora, a atenção devida ao livro que vos venho apresentar, diria que Murmúrios e outras imagens faladas é um exercício lúdico, como creio que toda a arte deve também ser, assente no número dois:
A dualidade inicia-se pela génese – dois autores, duas linguagens.
De um lado, o esquerdo, uma frase, uma história, uma palavra, num discurso fotográfico, cativante e envolvente, que a opção do preto e branco acentua.
Nas fotografias, alternam-se perspectivas e olhares que revelam, claramente, o ecletismo do autor Carlos Fernandes: passeamos, errantes como ele, comungando da consciência social presente no “Cavaleiro do Vento”, agrilhoado no alto do seu telhado, ou atentando no “Mensageiro do sol”, metáfora irónica de duas rompendo as grades metálicas. Registamos, novamente a dois, o elogio da inocência, nunca perdida, no olhar “A vida é agora”. Ou, ainda, tornamo-nos cúmplices dessa consciência da efemeridade do ser humano no panegírico a Gaia, deusa da Terra, n’ “O sono da casa”
O dois tem sempre continuidade à direita, dezanove vezes, pela mão do outro autor, Carlos Alberto Silva: aí, absorvente, está o texto, despertando intertextualidades. Primeiro um título, quase sempre nominal, depois uma legenda, sussurrando Almada, que enceta o diálogo, onde se misturam as vozes fotográfica e textual, antecipando a beleza da simplicidade dos breves poemas, em jeito de tankas japoneses, mas enriquecidos pela linguagem nossa, portuguesa.
São um tipo de poema depurado, belo, simples e fluente. Surgem como natural reacção estética minimalista à crescente consciência humana do olhar fixado pela objectiva. Simulam, por vezes, uma quase-dor telúrica, uma relação entre o particular e o geral, entre o mais individualmente percebido e o ritmo cósmico da natureza, entre a efemeridade da sensação e o eco que esta pode despertar quer na nossa sensibilidade, quer na nossa memória.
Também aqui não é possível escamotear o engajamento do poeta. Percebe-se essa inquietação torguiana, mas a que também não será alheia uma militância humana que, alguns de nós, igualmente, percebemos, um dia, no poeta da “Memória das Palavras”.
Finalmente, até no título, o carácter lúdico do jogo a dois se acentua. A polifonia das vozes múrmuras, o jogo de indeterminação calculada na classificação gramatical, essa ambiguidade sugerida na hesitação do substantivo e do adjectivo, logo disfarçada pela adição de “outras imagens faladas” são motivo de atracção do leitor, de teia que nos envolve, de desafio voluptuoso.
Eu aceitei o desafio e, sinceramente, não me arrependi.

Álvaro Mendonça
Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, Leiria. 12 de Dezembro de 2009.