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Na montra

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A Casa-Museu | Centro Cultural João Soares, em Cortes (Leiria), foi o local eleito por Pedro Jordão para o lançamento do seu primeiro trabalho em livro que tem por título “Textos cínicos de amargura variável”. Produzido pela editora Textiverso, de Leiria, tem 190 páginas, foi lançado no dia 5 de Novembro de 2016 e contou com a apresentação de Carlos Lopes Pires e a leitura de textos de Maria Celeste Alves.

Durante a sessão teceram algumas considerações o editor, Carlos Fernandes, e o próprio autor que disse do seu empenho na escrita deste livro e, de alguma forma, explicou os motivos que a suscitaram. Durante a sessão, foram ouvidas gravações de alguns temas musicais da autoria de Pedro Jordão, com letras de Carlos Lopes Pires. E foi justamente a este último que coube a responsabilidade de dar ao público presente algumas notas sobre o autor e uma ideia do conteúdo do livro.

 

Pedro Jordão, apesar de ter sido tradutor de muitos livros, era sobretudo conhecido como compositor, mas igualmente como autor de canções, e chegou mesmo a editar um Long Play (LP) lá por meados dos anos 70, embora destoando da toada revolucionária então em curso. Carlos Pires também se referiu a ele: «A memória difusa das canções desse disco acompanhou-me durante toda a minha vida. Trata-se de um disco contra a corrente, fora de moda. Estávamos em pleno movimento revolucionário, em que canções, ideologia e política se mesclavam e moldavam um padrão típico. E Pedro Jordão apresenta-se com um trabalho que, tanto no respeitante ao estilo musical, como às letras (ou melhor: poemas), destoava do pensamento dominante. Na época em que se cantava sobre as conquistas do povo, a reforma agrária e as gaivotas que voavam, Pedro Jordão edita um disco de desencanto, de desilusão profunda com essa época... O próprio título do disco desafiava esse pensamento dominante: “Eu já voei! Como possivelmente vocês nunca voaram…”. Por isso e muito mais, provavelmente é o músico português mais ignorado, o que até talvez seja um elogio...» Acrescentou depois: «E se falo neste disco é porque creio que tem uma relação directa com o presente livro. Ambos se dirigem ao cidadão comum e aos que gerem o sistema da mediocridade dominante, dizendo-lhes isto mesmo: vocês nunca voaram, nunca divergiram, nunca criaram. Nunca questionaram o que as coisas são. Também por isso é um livro muito provocador.»

Pires considera que ele se afirma como «questionamento da mediania»: «A mediania ou normalização é o que nos torna essencialmente todos iguais, mas com uns pozinhos daquilo que alguém chamou de pós-modernidade e democracia, e nos dá a todos e a cada um a convicção de sermos especiais. Os homens e mulheres medianos, normalizados, não pensam: reproduzem ideias que acreditam serem especiais, diferentes, originais. Acreditam que as coisas são como são porque sempre assim foram, embora não façam ideia de como as coisas são nem onde começou o “sempre”. Repetem o que já foi dito e redito até à exaustão, mas de cada vez que repetem julgam que é a primeira e a original.» O livro, contudo, vai mais longe: «Há também humor, há também esperança: a felicidade virá, sim, não tenho dúvida, quando pela «porta estreita» couberem todos os que nós formos...» Trata-se, pois, de um livro que «dá voz a um inconformismo, a uma não-aceitação do fácil» e....«além do mais, trata-se de um livro muito bem escrito, escorreito, variado em estilos e argumentos literários. Não se trata simplesmente de uma prosa, mas de uma escrita original, criativa, literária por assim dizer. Não é, pois, um livro qualquer, como poderão confirmar com a sua leitura.»

E concluiu: «Ler “Textos cínicos” não é como estar no borralho. É ver que chove lá fora e querer percorrer o caminho a pé. Tocar a lama, que é assim uma espécie de sítio de onde todos viemos e para onde todos vamos.»