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Natal em pandemia

Talvez toda a realidade se tenha tornado ainda mais incerta e o Natal tenha sido apanhado nessa onda. A realidade, aquela onde as comunidades humanas levam a sua existência, nunca foi coisa despida de incerteza. A novidade, se é que existe alguma, residirá em o crescimento exponencial dos mecanismos de segurança e de prevenção de riscos ter sido acompanhado pelo crescimento da sensação de insegurança e de exposição indefesa perante as mais diversas ameaças. A pandemia trouxe uma objectivação global a essa sensação de incerteza. Um tornado, uma catástrofe, mesmo um conflito armado, todas essas situações de grande risco são localizadas, parecem, se vistas de fora, excepcionais. A pandemia tornou manifesto, a toda a gente, que os riscos e a incerteza são presenças diárias e que não há lugares onde se esteja completamente protegido.

A experiência do Natal do ano passado, acabadas as festividades, não deixou boas recordações, como se pode ver pelo que aconteceu nos primeiros meses deste ano. Todas as sociedades, mesmo aquelas em que a indiferença religiosa é acentuada, se estruturam em torno de tradições provenientes do seu fundo religioso. No mundo onde o cristianismo é ou foi um elemento base da cultura, o Natal é um desses momentos em que a quotidianidade profana se suspende para que a vida encontre um marco referencial e possa prosseguir. Perante a incerteza em que se vive, agora acentuada pela entrada em cena de nova variante do vírus, há duas atitudes perante o Natal que não seriam sensatas. Uma seria fingir que nada se passa e encarar o Natal como se não houvesse pandemia. Outra seria ceder por completo ao medo e fazer do Natal tábua rasa, passar por ele como se não existisse. 

Haverá, pelo menos, uma terceira possibilidade. Perceber o Natal como um momento de diálogo com a incerteza que se apoderou da vida dos homens. O Natal é o lugar por excelência da incerteza, da precariedade, da pobreza constitutiva de toda a vida. A incerteza onde o Menino poderia nascer, a precariedade dos meios à disposição da família, a pobreza do presépio como lugar de acolhimento. Na tradição do cristianismo, é nesta simbólica da finitude humana que se manifesta o infinito da divindade, é ali mesmo que a vida triunfa sobre a morte. É neste núcleo simbólico do cristianismo que as sociedades cristãs e, ainda mais, as que se dizem pós-cristãs precisam de encontrar a chave para lidar com o que está a acontecer. O Natal nada nos diz sobre pandemias, mas diz muito sobre como devemos enfrentar a vida, da qual faz parte tudo aquilo que, por incerto, nos perturba.

(Crónica publicada no jornal A Barca. Sublinhados nossos.)