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Dia Mundial do Livro

No calendário multiplicam-se, por vezes até à exaustão, os chamados «dias mundiais» disto e daquilo. Não é nosso propósito questionar essa proliferação – talvez ela responda a uma necessidade difusa de dar nome e tempo ao que importa.

Mas há realidades que, independentemente de modas ou de lógicas de consumo, justificam plenamente um gesto de celebração. O livro é uma delas.

Assinalando o Dia Mundial do Livro, partilhamos hoje com os nossos leitores o texto ensaístico de Ana Isabel Marques, originalmente publicado na revista Dobra, onde se propõe uma reflexão lúcida sobre o lugar do livro na contemporaneidade. Como aí se lê, o livro permanece simultaneamente «sustentáculo e meio de difusão do conhecimento», mas também espaço de resistência e de construção de sentido.

A partir desse ensaio nasce também o conto O bibliotecário que cuidava do mundo, que disponibilizaremos em formato ebook de acesso livre. Celebrar o livro, hoje, é certamente isto: voltar a reconhecê-lo como um gesto de cuidado de cada um consigo mesmo, com os outros, com o mundo.

 

Cuidar com Livros, Cuidar do Mundo

Reflexão sobre o livro na contemporaneidade a partir do conto «O bibliotecário que cuidava do mundo»

Ana Isabel Marques 

(ESTG_IPLeiria / ILCML)

Desde a invenção da escrita à era digital, o livro tem sido alvo dileto das mais variadas reflexões, perceções e preocupações. O livro, dependendo dos contextos e das circunstâncias, pode ser entendido como sustentáculo e meio de difusão do conhecimento e do saber. Privilégio de minorias e elites, reservado apenas a alguns, ou propalado como bem essencial em contextos de democratização do ensino, o livro reflete, invariavelmente, o funcionamento das próprias sociedades.

Pode ser repositório da identidade cultural coletiva e, num plano mais intimista, do próprio indivíduo que aí descobre sentido de pertença. Glosando Tzve-tan Todorov na obra Literatura em Perigo (2009), a propósito do poder da literatura, mas que, neste contexto, assumidamente transponho para o conceito «livro» como modo de ampliar o nosso universo, de abrir ao infinito a possibilidade de interação com os outros e de, por isso mesmo, nos enriquecer e fortalecer.

O livro pode ser reduto de resistência dos coletivos ante a ascensão e implantação de autocracias. E pode, na perspetiva inversa, ser objeto malquisto de regimes totalitários, que veem nas palavras feitas livros sementes de rebelião. Ou ser concebido e produzido com o propósito explícito de doutrinação ideológica.

Tempos diferentes comportam desafios de natureza vária. O analfabetismo foi em muitos períodos históricos (e é ainda em muitas latitudes) o mais óbvio e intransponível óbice à própria existência do livro, sendo, por isso mesmo, estratégia preferencial de regimes despóticos. Nesses contextos, o fator género é desgraçadamente diferenciador, sendo as mulheres militantemente excluídas do acesso ao livro e ao saber livresco.

A iliteracia, ou analfabetismo funcional, é atualmente, e em todas as latitudes, o óbice maior à existência do livro e à relevância dos seus conteúdos.

Na vertigem da evolução tecnológica (feita moda ou tendência), o livro, sobretudo em suporte papel, é visto como algo ultrapassado e bafiento. A democratização do acesso à internet, a proliferação dos canais mediáticos e a propagação avassaladora das redes sociais empurram-nos para um atoleiro comunicativo do qual dificilmente nos conseguimos libertar.

Acelerou-se o tempo de leitura, que agora se quer frenética e pela rama. Retêm-se apenas os títulos, investe-se em parangonas e desinveste-se nos conteúdos. Não há já espaço-tempo para a reflexão ou digestão cognitiva que a leitura dos livros naturalmente requer.

Este cenário é terreno mais do que fértil para que a palavra-mote, oca, desprovida de profundidade semântica e sem pretexto para reflexão, cavalgue as ondas do populismo. A mentira, com a sofisticada designação de fake news, exibe um despudor inaudito e vai fazendo estragos em mentes mais incautas. A notícia moldada às cosmovisões, necessidades e sensibilidades de cada leitor é-lhe servida à medida, qual customized menu das cadeias de fast food.

Aqueles que, de alguma maneira, sentem perplexidade e pânico ante as distopias literárias a acontecerem procuram alertar para os perigos destes cenários e, num esforço patético ou, quiçá, quixotesco, tentam remar contra a corrente ou lutar contra moinhos de vento. Apregoam a importância do pensamento crítico, da reflexão literária, da leitura informada – faróis norteadores que, diz-nos a História, já tantas vezes salvaram a humanidade desesperançada.

É talvez agora o momento de nos socorrermos de novo dos livros. Fazendo eco, de alguma forma, das palavras de Tzvetan Todorov (2009) que valorizam a experiência da leitura em detrimento da esterilidade de análises literárias e exercícios teóricos a propósito da literatura, também neste espaço vou assumidamente desvalorizar o ruído da crítica literária para deixar ecoar a palavra narrada.

A narrativa que aqui se apresenta, e que tematiza o poder redentor do livro, é em si mesma um convite à reflexão sobre o papel da literatura, não só enquanto veículo de enriquecimento pessoal, mas também enquanto baluarte de estruturação identitária coletiva.