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 Nota editorial

A autora que escreveu O Lobo do Mar e que adaptou em baladas O Grande Rosto de Pedra, de Nathaniel Hawthorne sob o pseudónimo A. Aires retomou o seu anterior pseudónimo, Letícia Lisboa. A alteração do pseudónimo não corresponde a qualquer alteração de autoria.

Disponibilizámos gratuitamente este primeiro título da coleção Histórias Suspensas no Dia Mundial da Criança (ver notícia anterior infra), um convite a regressar, por instantes, a um tempo fora do tempo em que o mCapa Lobo do mar ebook e siteundo ainda estava cheio de portas entreabertas e de criaturas cuja natureza não precisávamos de definir para as podermos amar. Clique na imagem para descarregar gratuitamente.. 

 

Sobre o universo ficcional de Letícia Lisboa

 Vozes em devir

Com o propósito de enquadrar as narrativas recolhidas por António de Jesus e Silva e organizadas por André Camponês em Histórias da Serra (Aire e Candeeiros) (Textiverso, 2025), no âmbito do projecto «(i)materialidades», por ele dirigido, Letícia Lisboa imaginou um grupo de jovens contadores de histórias, identificados por pseudónimos aliterativos, que apresentavam e recontavam essas narrativas.O nome A. Aires surgiu espontaneamente no âmbito desse jogo, a par de Raul Rocha, Vera Vale, Fábio Fontes, Martim Mimo e Sílvia Silva, passando, na futura edição digital de Histórias da Serra – Aire e Candeeiros, a Ariadne Aires.. A Serra d'Aire (e Candeeiros) fascina Letícia Lisboa desde a infância. Ariadne, pelo universo simbólico que convoca, revelou-se o nome que melhor corresponde à personagem que, na encenação ficcional da apresentação do livro (uma subtil mise en abîme da autoria), surpreende os restantes contadores de histórias ao lhes oferecer, no final da sessão e como suplemento, uma recriação em verso das «Histórias da Serra», sob a forma de baladas, evocando uma antiga tradição de transmissão oral e reclamando, pela sua própria natureza, a musicalização.

A designação do colectivo ficcional, inicialmente inspirada pela aproximação entre «Várias Vozes», inequívoco eco de Derrida (Psyché), e o título do filme In weiter Ferne, so nah! (Tão longe, tão perto), de Wim Wenders, evoluiu, entretanto, para «Vozes em devir», numa aproximação entre Derrida e Deleuze, por entender a autora que esta formulaçãoexprime mais adequadamente a visão da autora: compreender a narrativa como um processo contínuo de renarração, a várias vozes, aberto e sempre em curso, em que as vozes herdadas do passado permanecem disponíveis para o advir de sentidos sempre ainda por vir.

É neste horizonte que se inscreve o projecto Vozes em devir. Mais do que um colectivo ficcional,.constitui o espaço onde a autora procura dar forma a uma convicção que atravessa toda a sua escrita: a de que as histórias nascem, renascem e se transformam no encontro entre vozes, sem jamais se deixarem reduzir a uma origem única nem a um sentido definitivo. Algumas são criadas de raiz; outras prolongam narrativas herdadas; outras ainda atravessam línguas, épocas e formas de expressão. Todas, porém, habitam esse limiar onde o visível deixa entrever o invisível, onde a memória permanece aberta ao inesperado e onde a imaginação continua a descobrir mundos que pedem para ser contados. É nesse espaço de passagem, entre criação e recriação, entre herança e invenção, que a autora reconhece o lugar da literatura e, em grande medida, o próprio sentido do seu percurso de vida.

A colecção Histórias Suspensas prosseguirá em breve com O Fantasma da Rocha, segundo título da série, que será publicado simultaneamente em formato digital e impresso. Como O Lobo do Mar, também O fantasma da rocha convidará os leitores a atravessar esse mesmo limiar onde as histórias permanecem suspensas entre o que recordamos, o que imaginamos e aquilo que, sem nunca se deixar possuir inteiramente, continua a chamar por novas vozes.