Na montra

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A população do Soutocico, da freguesia do Arrabal (Leiria), teve oportunidade de assistir, no dia 7 de Abril último, ao lançamento de um livro que muito lhe toca. Tem por título “O último patamar” e é da autoria de um filho da localidade, o Dr. Fernando Manuel Brites. A apresentação, que esteve a cargo do Dr. Orlando Cardoso, decorreu na sede do Clube Recreativo e Desportivo do Soutocico, antecedida da intervenção musical da Orquestra Juvenil do Soutocico e encerrando com um Porto de honra.

Orlando Cardoso evocou a sua ligação à região através de outras publicações, conhecendo bem o autor. Considerou que o livro em apreço denota duas vertentes na sua estrutura estilística: uma, praticamente ficcional, que aborda algumas das histórias da população local; e, outra, de carácter mais monográfico, que assenta sobretudo na representação popular do “Enterro do Bacalhau”.

 

 

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Como se escreve no prefácio, «o género adoptado pelo autor é o da quase ficção, com discursos directos e episódios picarescos, uns reais, outros imaginados, passados à volta das tabernas ou das lojas da localidade do Soutocico – epicentro da sua divagação antropológica». Através deles, e apesar dos nomes fictícios, ficam-se a conhecer os tipos de pessoas, as suas profissões, a sua agudeza de espírito e as suas maleitas, os seus êxitos e desventuras, a sua pobreza e a sua vontade de vencer.

O prefaciador acrescenta: «Mas ficamos a saber ainda que a vida sociocultural tinha raízes profundas, exprimindo-se não só em manifestações religiosas, mas também em actividades lúdicas como a música e o teatro. Contudo, uma boa parte do livro de Fernando Brites é dedicada a essa iniciativa que, tendo-se realizado pela primeira vez no Soutocico em 1938, viria a constituir, a partir dos anos 80, uma das bandeiras da cultura popular da região ­– “O Enterro do Bacalhau”.» «O empenhamento da comunidade e o número de pessoas envolvidas é de tal ordem que praticamente ninguém fica alheio, numa manifestação cultural transversal assumida como património inalienável.»

Apesar de a música e o teatro já terem pergaminhos na localidade, a criação da Filarmónica do Soutocico, em 1946, por cisão da Filarmónica da freguesia do Arrabal, projectou para o exterior a capacidade empreendedora das gentes do Soutocico, assunto também tratado miudamente neste livro, capacidade que se exprime também no associativismo que tem aqui um lugar de eleição, «promovendo a ocupação dos tempos livres dos seus concidadãos e a criação de grupos desportivos de elevada qualidade, como os que praticam futebol ou basquetebol, brilhando a nível regional e nacional».

«Fernando Brites a todos estes motivos dá relevo, com o conhecimento e o saber de quem viveu ou observou muito do que descreve e identifica no território povoado de que é originário. E culmina o seu trabalho com um glossário de termos populares que ajuda a perceber muitas das palavras e frases que o povo utiliza no seu linguajar quotidiano.»

Fernando Brites é autor de outros títulos como: “Mirante” (poesia), Moçambique, 1970; “Canção para um poema só” (poesia), Leiria, 1975; e “Vozes no Charco” (ensaio sobre a guerra colonial), Leiria, 1999. Colaborou também noutros livros.