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Há livros que nascem num determinado momento, mas agcasuarina do tempo da gravília 72pdi siteuardam o seu verdadeiro tempo. 

As edições em versão bilingue e em adaptação a baladas de O Grande Rosto de Pedra estavam preparadas. Tudo apontava para uma publicação próxima. Porém, a vida, com a sua imprevisibilidade, introduziu um intervalo.

Partiu aquele que foi, desde a fundação da Textiverso, o esteio da família em que a editora teve origem. Presença silenciosa, mas firme. Não era o rosto visível do projecto, mas era a sua base – como a rocha que sustenta a montanha sem reclamar protagonismo.

Uma semana depois da sua partida, uma tempestade sem precedentes devastou Leiria. O vento arrancou pela raiz a colossal casuarina que, há décadas, assinalava a casa da família e sede da Textiverso. Milagrosamente, a árvore não tombou sobre nenhuma habitação; deitou-se, em toda a sua extensão, ao longo de um jardim estreito, como se tivesse escolhido cair sem ferir. O estrondo esperado não se ouviu. Apenas um silêncio impressionante. O próprio vento parecia ter-se calado.

Há acontecimentos que se inscrevem na memória com a força de um símbolo. A queda dessa árvore – imponente, guardiã do espaço familiar – pode ser lida como uma imagem da própria perda: a grandeza que se retira, deixando o horizonte mais exposto, mas preservando, ainda assim, o que importa proteger.

Seguiram-se meses de suspensão. O luto tem o seu ritmo, e o trabalho editorial  – sobretudo quando nasce de um gesto de celebração e homenagem – exige estabilidade interior.

Publicaremos agora esta obra porque compreendemos que o tempo de esperar se transformou em tempo de continuar. Se o conto de Hawthorne interroga o perfil do verdadeiro dirigente, também nos recorda que a grandeza raramente coincide com a visibilidade. Muitas vezes, ela habita a discrição, a constância e o cuidado silencioso.

As edições em ebook de «O grande rosto de pedra» surgem, assim, não apesar da interrupção, mas atravessadas por ela. Talvez enfatizando o que significa sustentar, perseverar, acolher o por vir.

Como no encontro escrito por Hawthorne, acreditamos que da relação que permanecerá viva – mesmo quando marcada pela ausência – irrompe sempre uma terceira presença: um sopro que não pertence a ninguém, mas que continua a gerar sentido, continuando a gerar a relação de que nasce.

É nesse espírito que retomamos o caminho.