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BlakeA noite de Natal, o momento em que se simboliza o começo da história do Cristianismo, introduziu no mundo um princípio de esperança até aí desconhecido. Independentemente da querela sobre a existência ou não de um Jesus histórico, ou da crença ou descrença na sua natureza divina, a religião que se organizou em torno de uma história que vai do nascimento no estábulo, em Belém, à morte na cruz, em Jerusalém, trouxe uma ruptura com as outras formas de religião, as quais, por norma, vergavam o homem a um fatalismo tão cego que, dificilmente, os seres humanos poderiam imaginar libertar-se dele. O cristianismo veio colocar o destino de cada um, numa vida após a morte, na sua própria mão, nas decisões que tomar quanto ao modo como se comporta nesta vida. Esta mudança na esfera da salvação, com o passar dos séculos, começou a contaminar a existência social dos povos convertidos ao cristianismo. Uma vida digna de ser vivida neste mundo, como a salvação na eternidade, dependerá das escolhas que indivíduos e comunidades fizerem.

Agora que o ano de 2023 se prepara para dar lugar ao de 2024, será o momento de indivíduos e comunidades se interrogarem sobre a bondade das suas escolhas. Será que os meus actos individuais e as minhas paixões singulares contribuem ou não para uma vida digna de ser vivida? Será que as escolhas comunitárias que estamos a fazer ou iremos fazer contribuirão para uma comunidade mais decente, onde todos encontrem uma esperança para a sua vida? Esta interrogação só tem sentido a partir da liberdade que o cristianismo trouxe ao mundo. Aquilo que temo, porém, é que todos nós, indivíduos e comunidades, nos estejamos de novo a entregar a um fatalismo cego que aniquila a liberdade e nos entrega a um mundo indigno de seres dotados de razão.

Soterrámos o Natal, primeiramente, numa festa de família; depois, numa orgia de consumo. Seria bom, porém, que retomássemos – os homens de boa vontade, crentes, agnósticos e ateus – a esperança da narrativa do nascimento de Cristo. Na mais pura pobreza, nesse lugar impróprio para nascer um ser humano, deu-se um acontecimento, mesmo que apenas imaginado, que abriu a humanidade à esperança, a esperança da salvação, mas também à da liberdade. É verdade que o cristianismo nos trouxe um encargo não pequeno, o de, como homens livres, sermos responsáveis pelas nossas escolhas. Estas, singulares e comunitárias, cairão sobre os nossos ombros. O mundo que delas derivar será da nossa responsabilidade, queiramos ou não. Resta saber se seremos fiéis à esperança trazida pelo Natal ou se nos submeteremos aos cantos de sereia e ao velho fatalismo de que o cristianismo nos tenta salvar.

Jorge Carreira Maia (2023). Noite de Natal. In A Barca e aqui.