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Premissas para a construção da identidade europeia

Os dias que correm, em que somos literalmente esmagados por crises económicas, crises de refugiados, ataques terroristas, que saltam sucessivamente para as páginas dos jornais consoante o surto de que somos acometidos no momento, provam-me à saciedade a importância das questões culturais, porque é minha convicção que por detrás da endémica crise nacional e da já chamada derrocada da Europa está uma profundíssima crise identitária das nações e do continente que poucos souberam atempadamente diagnosticar. É, por isso, que se torna tão difícil (se não mesmo impossível) encontrar a curto prazo uma resposta rápida e eficaz para os problemas que nos assolam actualmente.

         

[Ode an die Freude / Hino à Alegria, Nürnberg, 2014]

[Ode an die Freude / Hino à Alegria, Nürnberg, 2014]

                      

É antigo (e legítimo) o sonho europeu. Outros melhor do que eu (e seguramente mais habilitados) conseguirão reconstituir essa história e organizar a sua cronotopia. Trata-se (dirão muitos) de uma manta de retalhos e de um aglomerado de culturas, povos e nações, e, por isso mesmo, de um conceito dotado de uma diversidade que inviabiliza à partida quaisquer projectos unificadores. E curiosamente os tempos parecem dar-lhes razão. Não poderia, no entanto, estar mais convicta de que se trata de um falso pressuposto. Subjaz à realidade europeia uma diversidade cultural tão visível nesse espaço continental quão visíveis são as diversidades culturais dentro de um mesmo território nacional, entre o norte e o sul de qualquer país. O enfoque dos projectos de unificação deverá ser, pois, nas semelhanças e não nas diferenças. E a Europa tem essas semelhanças. Subjaz-lhe um conjunto de valores e princípios que estruturam e moldam os cidadãos europeus. Liberdade, igualdade, fraternidade, solidariedade, amor ao próximo, tolerância e respeito pela pessoa humana são princípios que nos são incutidos desde o berço. Trata-se de valores que integram o património imaterial da cultura ocidental. (Desengane-se quem pensa que são valores cardinais em todos os pontos do globo).

       

Ana Isabel Marques